25 Abr 1974 – 25 Abr 2009

 

Dia D

Era um prazer a visita da D. Angelina.
Foi triste quando ela foi morar para Coimbra, mas a Alicinha tinha sido colocada em Coimbra para o estágio de medicina e seria tudo mais fácil. Agora me lembro, a Alicinha costumava sentar na cama o esqueleto, que lhe servia de estudo.
A D. Angelina tinha uma voz muito agradável, e era uma boa contadora de histórias. Deliciava-me a ouvir episódios ora de Lisboa, ora de Carcavelos e até da Maria do Mar, filha de uns amigos lá de Lisboa.
Gostava de ir a casa dela. Tinha uma gaiola, para mim gigantesca, cheia de periquitos. Era de um formato cilíndrico e terminava em cone. Encantava-me os sons daqueles pássaros. Ah, lembrei-me agora da vasta colecção de caixa de fósforos do Sr. Mário. Muitas delas tinham sido trazidas das colónias enquanto prestava serviço militar.
Graças a ela, os estufados passaram a ser feitos num relativo curto espaço de tempo, com a introdução da panela de pressão. A mãezinha rendeu-se ao efeito mágico deste utilitário doméstico. Ficou tudo muito mais simples, se bem que de vez em quando fosse necessário dar um jeitinho à tampa da panela para a mesma funcionar.
Às vezes vinha passar uns dias lá a casa e, se o sr. Mário estivesse de serviço viria ter com ela no fim de semana. Eram dias de azáfama doméstica diferente.
Tinha chegado há dois dias.
Quando acordei preparei-me para a escola e enquanto tomava o pequeno almoço, fui surpreendida por um burburinho. Algo se passava. Estava tudo com o ouvido colado ao rádio.
– D. Helena, vou fazer as malas e parto no próximo comboio. Não sei se ele estará bem – o sr. Mário tinha o posto de major, e ela receava por ele
Entretanto o paizinho, que já tinha saído há muito, voltou a casa e disse:
– Nada de ajuntamentos. Se virem ajuntamentos afastem-se.
Eu queria compreender a situação. Sabia que tinha havido uma revolução, mas nada mais sabia.
Na escola foi-nos explicado o que se passava por uma professora:
– Portugal vivia num regime fascista. Só havia uma opção política e quem fosse contra era torturado e preso. Ao longo destes dias, ser-vos-á explicado melhor, quer em casa, quer aqui na escola. Podem sair. Podem ir para a rua para comemorarem a Liberdade.
Não se metam em confusões. Ser livre não é fazer tudo o que queremos. Não temos direito de ir contra a liberdade do outro. Temos o direito a partir de agora de lutarmos pelos nossos ideais. Não estranhem se virem alguns dos vossos professores, pelas ruas de Espinho gritando liberdade. Eu vou estar lá.
Nada voltou a ser igual.
Um dia o meu filho perguntou-me como era Portugal antes do 25 de Abril.
Respondi:era a preto e branco
Para os meus irmãos,
Com carinho
a.


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